Leandro Matozo: “Se o artista está lançando a verdade dele, é isso que ele deve fazer”
Por trás das câmeras e acima dos palcos, conheceremos a trajetória do repórter cinematográfico que brilha nos palcos do rock

Leandro Matozo cantando na Avenida Paulista, em São Paulo - Foto: (Reprodução/Arquivo pessoal)
Das câmeras ao palco, Leandro Matozo (38) é repórter cinematográfico da TV Globo há mais de 10 anos e desde pequeno apaixonado por rock, colecionando diversas experiências com a música e a cultura popular do Brasil.
Atualmente, reside no bairro Jardim Santo André, Zona Leste de São Paulo. Vocalista da banda De Quebra Rock, descobriu seus talentos musicais ainda jovem. Durante sua careira, já se apresentou em grandes palcos, como no Lollapalooza, em 2013, com sua antiga banda DonaLaíde, além de eventos como o Sk8 Sound Festival, em sua “quebrada”, a qual o mesmo é apaixonado.
Utilizando de sua influência dentro do bairro onde mora, já organizou alguns eventos que iam desde palestras com profissionais abordando temas diversos até eventos musicais. Confira a entrevista exclusiva concedida por Leandro Matozo.
LEANDRO MATOZO
por Kaio Vilarino
Nada mais justo para a primeira pergunta, você nos contar quem é ‘Matozo’. Fale um pouco sobre a sua carreira, as suas inspirações, como você sentiu a conexão com a música, até chegar nessa questão de ter sido vocalista de duas bandas.
Eu sou repórter cinematográfico, trabalho no jornalismo da Globo, atualmente no Bom Dia São Paulo e no SPTV. Eu comecei na música com a minha mãe, mesmo que meus pais nunca tenham sido musicistas. Minha mãe ouvia muito rádio, desde pequeno no caminho da escola, ouvia a antiga Jovem Pan, a Transamérica e lá tocava muito pop e

rock misturado, eu ouvia e gostava. Quando o Renato Russo morreu, em 96, eu olhava as reportagens na TV e pensava: “Pô, eu conheço essas músicas”. E assim comecei a juntar moedas, fazia as tarefas de casa e ganhava uma mesada. Com esse dinheiro, eu comprava CDs. Ainda criança, eu já estava com a discografia da Legião (Urbana) completa, aí na escola eu comecei a ouvir outras bandas com os meus colegas mais velhos: Guns N’ Roses, Titãs, Nirvana, U2. E aí eu virei um “doido”, ouvia o dia todo e comecei a comprar as camisetas das bandas, comecei a frequentar as casas de show. O primeiro que eu fui foi lá no Kazebre Rock Bar para ver os Titãs, isso aos 14 anos. Aos 16, eu já estava no meu primeiro emprego, que era em um mercado e, muitas vezes eu ia virado trabalhar porque a noite eu estava em shows de bandas cover. Depois tive meu primeiro show grande: fui em um estádio ver o Linkin Park, com abertura de Charlie Brown Jr, realizado pela Mix FM. E minha vida passou a seguir nesse rumo, tinha mais de 500 CDs em casa. E chegou um momento que eu comecei a pensar: “Agora eu preciso fazer alguma coisa, aprender a cantar, a tocar alguma coisa”. Eu peguei uma lotação e, na cidade comecei a procurar e perguntar onde tinha uma escola de música. Até que achei e ali eu comecei, foi a primeira etapa dessa paixão. Passei a estudar música nessa escola em 2010 e achei alguns amigos que curtiam as mesmas coisas que eu, assim montamos a DonaLaíde, nome inspirado na minha tia avó que era uma figura. De 2010 a 2013 nós tocamos mais por diversão. Teve alguns shows, mas era principalmente por diversão e, ali mesmo, em 2013, decidimos pegar mais firme e levar mais a sério, gravamos clipes e músicas.
Leandro Matozo - Foto: (Reprodução/Arquivo pessoal)
Matozo, em um podcast você estava explicando sobre o Profissão Repórter e disse que São Luís do Maranhão é o berço cultural do Brasil. Por quê?
Cara, me chamou muito a atenção em como lá as pessoas gostam de Reggae e, estudando, eu percebi que existe uma conexão entre a Jamaica e São Luís. Não está longe, eu vi que as rádios da Jamaica pegavam na cidade de São Luís. Eu achei isso muito louco. E não sei se pode ter algo a ver, mas o time da cidade (Sampaio Correia) tem as cores do Reggae. E quando eu fui trabalhar lá (cheguei a ir duas vezes com o Profissão Repórter), em uma dessas, consegui um tempinho para ir em um evento. Estava rolando um show de reggae e “estiquei” para o centro histórico e, lá tocava de tudo e a galera estava pulsando e cantando todas as músicas, me chamou bastante a atenção.
Como você cobriu o The Town, quão longe esse evento está da quebrada e como você acha que ele afetaria a comunidade culturalmente?
Eu poderia falar sobre a questão da localização, mas até a quebrada da zona sul está perto do Autódromo, ainda é relativo. Mas com certeza é por conta do preço. É um evento muito legal, seguro, com grandes artistas de dentro e de fora do Brasil e com vários estilos, eu acho legal essa mistura. Mas não só o The Town, os festivais grandes tem essa questão do valor alto, o consumo do local também fica caro.
Qual foi o seu melhor momento com a música e o seu pior também?
Falando assim de cabeça, quando eu ainda estava com a DonaLaíde, tocamos na 89 (Rádio Rock) em duas temporadas, fizemos shows para eles. E na Kiss, haviamos lançado um álbum, alguns clipes e isso fez a gente dar uma “levantada” no grupo. Não estouramos, mas fizemos vários shows legais. Tocamos no aniversário da cidade de São Paulo, no palco externo do Lollapalooza de 2013, era um palco fora do autódromo e não precisou ser pago pelo público pra ver a gente. Também abrimos o show do Titãs na faculdade São Judas. Eu também fazia um evento no quintal da casa da minha mãe, chamado “Rock da Porra”. A gente juntava várias bandas no quintal aberto, teve um dia que foram 11 bandas que se apresentaram. E um dos momentos ruins que veio na cabeça, foi quando a gente tocou num bar e fecharam um cachê baixo para tocarmos por 1h30; quando deu o tempo ele pediu para continuar, que o pessoal tava começando a chegar ainda, tocamos por 3h, e ele não pagou o valor combinado.

Leandro Matozo com a banda De Quebra - Foto: (Reprodução/Arquivo pessoal)
Como foi a experiência de tocar no palco do Lollapalooza? Foi a preparação que mais deu frio na barriga?
É um baita de festival daora, com nome gigantesco, o convite chegou pela própria TV Globo, no tempo a Globo tinha um projeto “Parceiros de SP”, que até foi assim que eu entrei para a televisão, eles
selecionavam moradores que eram influentes em alguns bairros, aí foi uma seleção muito grande, a gente entrou, e a globo decidiu colocar alguém que era da periferia para se apresentar, o produtor logo pensou na gente, foi uma grande dor de barriga, tocar num mega palco desse.
Como surgiu a sua nova banda De Quebra Rock?
Durante o período da pandemia, a DonaLaíde acabou e eu fiquei apenas em casa com o violão e arriscava alguns covers. Ano passado (2022), eu estava morando na Penha com a minha esposa e, quando voltei para São Mateus, lembrei de alguns amigos, o Lucas e o Dubê, e propus pra eles pra gente se juntar e arriscar um som, ir pra uma pegada autoral conforme for passando o tempo. E minha prioridade são meus filhos e, o que eu conseguiria seria ensaiar um dia na semana, e deu a calhar certinho, pra todos no mesmo dia. Estamos com 6 meses de banda e ensaiando na casa do Dubê. De início, nossa proposta seria um trio acústico, eu na voz e violão base, Lucas no violão fazendo solo e o Dubê no baixo e percussão, chegamos a tocar só nós três, mas aí decidimos incluir um “batera” pra mudar a vibe de tudo, colocamos o Cássio junto com a gente e fechamos o time.
Quais feitos você espera alcançar com a De Quebra Rock?
Eu sou viciado em música, a ideia da banda é fazer músicas do cotidiano, falar sobre tudo que acontece na quebrada mesmo, levar nossa música além e fazer a cabeça das pessoas. Queremos lançar nossos clipes, participar de grandes festivais e continuar por aí fazendo nossos shows, lançar nossos álbuns e levar nossos ideais a diante.
A sua visão atual do mundo da música com a De Quebra é a mesma que você tinha quando fazia parte da Dona Laide?
Sim! Eu não entro em nada que eu não acredite, quando eu recebi o convite para vir pra cá eu logo pensei “Poxa, eles estão na faculdade, estão a milhão, eu já passei por isso, eu tenho que ir lá ajudar eles”. Então qualquer projeto que eu esteja me envolvendo, eu vou levar a sério, eu acredito no que eu faço, vou fazer bem feito sempre. Faço porque gosto e não tudo pelo dinheiro.
O mundo da música muda vidas, como por exemplo o Rap nas periferias, você acha hoje, na sua visão jornalística e artística que o Rap perdeu essa visão de “mostrar a realidade” para um algo a mais de ostentação?
Vai de cada artista, se o artista está lançando a verdade dele, é isso que ele deve fazer, seja falar sobre viver na periferia, mesmo se for algo agressivo, se for para um lado mais romântico, vai ser da vivência e da verdade dele. Eu não concordo quando o artista fala sobre algo que ele não vive, que aí eu acho que a música fica vazia, a música some em menos de 3 meses, não vai ter profundidade, não vai ter conteúdo. Legião Urbana, Racionais, todo mundo escuta até hoje por isso, a música deles não morre, e mesmo antigas falam de questões do dia de hoje. E não acho que seja errado o pobre que nunca teve nada, conquistou alguma coisa e fazer um som sobre isso, os ricos fazem isso sempre e ninguém reclama, é direito daquele que conquistou honestamente.
O que você acha que falta para a cultura alcançar ainda mais pessoas afastadas dos grandes centros? Qual a responsabilidade do Governo e dos próprios artistas?
Entra a questão dos valores, os encantos precisam acontecer nos lugares mais centralizados, mas precisamos desse tipo de coisa no nosso meio também, exemplo disso são os Céus, que o pessoal consegue ir pra se distrair e ter um lazer sem nenhum custo, mas também vai um pouco do interesse, às vezes o pessoal cria uma bolha na periferia, tanto os moradores quanto os de fora, rola um evento e outro e a pessoa não vai por isso, ainda temos poucos eventos assim, mas temos que nos interessar mais sobre isso e frequentar para poder cobrar a mais.
Saiba mais sobre o entrevistado:
Instagram: umdiadematozo/dequebrarock
